Arquivo Público Municipal revela a história das feiras livres de Vitória da Conquista
Da antiga feira da Rua Grande, no século XIX, à atual Ceasa, as feiras livres acompanharam as transformações urbanas, econômicas e culturais de Vit...
29/09/2026 às 13h01
Por: Carlos MessiFonte: Prefeitura de Vitória da Conquista - BA
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Foto: Reprodução/Prefeitura de Vitória da Conquista - BA
Da antiga feira da Rua Grande, no século XIX, à atual Ceasa, as feiras livres acompanharam as transformações urbanas, econômicas e culturais de Vitória da Conquista. Parte dessa trajetória pode ser conhecida por meio de fotografias, documentos administrativos e plantas arquitetônicas preservados pelo Arquivo Público Municipal.
O acervo ajuda a contar como os espaços de comercialização mudaram ao longo das décadas e como feirantes, produtores rurais, comerciantes e consumidores contribuíram para a formação da identidade de Vitória da Conquista e do Planalto da Conquista.
A tradição das feiras livres no município remonta ao século XIX, com a primeira feira da então Imperial Vila da Vitória. Ela funcionava na antiga Rua Grande, abrangendo áreas onde hoje estão as praças Tancredo Neves e Barão do Rio Branco. O local reunia comerciantes, negociantes e tropeiros de diferentes regiões, inclusive do norte de Minas Gerais.
Registros do memorialista e professor Mozart Tanajura relatam a existência de um grande barracão na Rua Grande, utilizado para abrigar os feirantes e tropeiros que chegavam à vila na véspera da feira, realizada aos sábados.
Na obra“História de Conquista: crônica de uma cidade”, Tanajura registra que, em 1912, o barracão já se encontrava bastante deteriorado e acabou demolido durante o governo do intendente Coronel Gugé. A feira, no entanto, continuou sendo realizada na região, onde se concentrava boa parte das casas comerciais da época.
Ao longo do crescimento da cidade, a feira mudou de endereço e também de dimensão. Em 1938, durante a gestão do então prefeito Régis Pacheco, foi transferida da Rua Grande para a Avenida Municipal, atual Avenida Lauro de Freitas. Mesmo sem um edifício destinado ao Mercado Público e ainda sem pavimentação, a atividade comercial permaneceu no local até o final da década de 1940, quando passou para a Praça da Bandeira.
Décadas depois, com o crescimento econômico e urbano de Vitória da Conquista, a região ganhou o Centro Comercial Fernando Spínola, popularmente conhecido como Mercadão. O espaço se consolidou como importante ponto de comércio, enquanto a feira continuou crescendo e ocupando áreas do entorno.
A expansão da atividade levou a uma nova transformação na década de 1980. Durante a gestão do ex-prefeito José Pedral Sampaio, uma extensa área conhecida como Mamoneiras foi escolhida para receber a Central de Abastecimento Edmundo Silveira Flores (Ceasa).
Foto: Reprodução/Prefeitura de Vitória da Conquista - BA A construção permitiu reorganizar os comerciantes que ocupavam a área em frente ao Mercadão e ampliou o espaço destinado à comercialização. Ao longo dos anos, a Ceasa se consolidou como uma das principais referências do comércio popular de Vitória da Conquista e como ponto de encontro entre produtores, feirantes, moradores e visitantes.
Atualmente, a estrutura conta com cinco grandes galpões e diversos boxes onde são comercializados verduras, frutas, carnes, queijos, biscoitos, beijus, goma de mandioca e uma grande variedade de outros produtos.
Segundo a Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop), a Prefeitura administra cinco feiras livres: o Mercado Municipal do Bairro Brasil, o Mercado de Carnes do Bairro Brasil, a Feira da Ceasa, a Feira do Alto Maron e a Feira da Patagônia. Há ainda feiras administradas por associações comunitárias em bairros como Urbis VI, Urbis V e Vila América.
Cerca de 1.600 boxes estão ativos para comercialização nesses espaços. A maior concentração está na Ceasa, principal feira livre da cidade, onde mais de 200 boxes são destinados à comercialização de biscoitos, beijus e goma de mandioca.
A rotina dos feirantes começa cedo. Antes mesmo das 5h, muitos já estão recebendo produtos, organizando as barracas e preparando os espaços para atender os primeiros consumidores. Além de movimentarem o comércio, as feiras garantem espaço para que pequenos produtores da zona rural comercializem diretamente sua produção.
A coordenadora de Gestão de Feiras, Mercados e Cemitérios, Vanderleia Costa, destaca a presença desses trabalhadores nos espaços administrados pelo município. “Hoje a Prefeitura possui mais de 1.000 permissionários da zona urbana e, principalmente, da zona rural. Esse total está disposto nas cinco feiras livres administradas pela Prefeitura e no restante que é coordenado por associações comunitárias”.
Tradição que atravessa gerações
Entre os produtos que se tornaram símbolos das feiras conquistenses, estão os biscoitos. Desde 2024, Vitória da Conquista é oficialmente reconhecida como Capital Estadual do Biscoito, título concedido por meio da Lei Estadual nº 14.688/2024 e relacionado a uma tradição de receitas familiares transmitidas ao longo de gerações.
A variedade encontrada nas feiras inclui avoador, chimango, biscoito de goma e palitinhos de coco e de goiabada, entre outros produtos. Na Ceasa, comerciantes estimam que sejam encontrados mais de cem tipos de biscoitos.
A história da vendedora Ivone Prado se mistura à própria transformação das feiras da cidade. Há mais de 35 anos comercializando biscoitos, ela começou ainda criança, ajudando a mãe na feira da Praça da Bandeira.
“A minha infância foi ajudando. A gente fazia saco de farinha, a gente plantava e arrancava mandioca, fazia farinha, beiju e biscoito. Fazia tudo e trazia pra vender, pra comercializar aqui na cidade. Os turistas vêm aqui só pelo biscoito, aqui é a parada certinha. Eles vêm só pra conhecer a feira e acabam comprando, porque aqui tem muita variedade. Aqui é um imenso ponto turístico”, relata Ivone.
Para o coordenador do Arquivo Público Municipal, Robson dos Santos, compreender a história das feiras também ajuda a entender o desenvolvimento econômico e social de Vitória da Conquista. “Era nas feiras livres que a população, falando do período de 50, 60 anos atrás, comprava seus mantimentos. O pequeno agricultor que produzia em baixa escala tinha a oportunidade de vender na feira e, de lá, tirava o seu sustento através da comercialização. Então, foi de fundamental importância as feiras de Conquista para a cidade”.
O feirante Thiago Veigas conta que juntou todo o seu conhecimento acadêmico e o seu amor pelos negócios para abrir uma barraca na Ceasa. “Hoje são mais de 30 fornecedores de diversas regiões aqui, desde o Simão, Pradoso, José Gonçalves, entre outros. Aqui o comércio é bem forte o ano inteiro, mas o período mais escalável é o São João e o final do ano. Em dezembro e janeiro vende muito”.
Ao reunir fotografias, documentos e outros registros sobre esses espaços, o Arquivo Público Municipal preserva parte da história das transformações vividas por Vitória da Conquista e das pessoas que ajudaram a construir a identidade econômica e cultural do município.
O acervo está disponível para pesquisadores e para a população interessada em conhecer a história da cidade. O Arquivo Público Municipal funciona das 8h às 17h, na Avenida Juracy Magalhães, nº 3.920, bairro Felícia.
Visitas guiadas podem ser agendadas pelo telefone (77) 98824-4290 ou pelo e-mail [email protected].
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